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Meu primeiro e-book, Sobrevivi sem ser escolhido. Peça pelo WhatsApp e eu te envio pessoalmente.

Capa do e-book Sobrevivi sem ser escolhido, de Flávio Vieira.
E-book · relato autobiográfico

Sobrevivi sem ser escolhido

Primeira edição 2026, Araraquara/SP, edição do autor. Relato autobiográfico. Não substitui acompanhamento psicológico, psiquiátrico, médico ou de Serviço Social.

Estrutura em seis partes
  1. Parte I — O menino que ainda não sabia o nome da dor. Jabaquara, feira com o senhor Osvaldo, José Vicente contando as notas, escola da noite, casa simples.
  2. Parte II — Quando o mundo aprendeu a doer. O susto da infância, o silêncio, a adolescência, o caderno, o humor que sangrava por baixo.
  3. Parte III — A fé, a voz e o palco vazio. A fita cassete, o nome de Fábio chamado no lugar do meu, o grupo iniciante, o impostor no banco da igreja.
  4. Parte IV — A casa que a dor construiu. Depressão, crise, angústia, o dia seguinte, mapa prático da noite ruim.
  5. Parte V — A formação. Serviço Social, ética, invisíveis, segunda-feira, a busca da sanidade.
  6. Parte VI — O recomeço que ninguém autorizou. O convite que nunca veio, o Dia dos Pais, relacionamentos que não voltaram, a esperança teimosa.

Homenagem

Para José Vicente, meu pai

Flávio Vieira ao lado do pai, José Vicente.
Flávio Vieira e José Vicente.

Dedicatória — Para quem ficou

Dedico estas páginas a José Vicente, meu pai. E a quem já se sentiu à margem do mundo — àqueles que caminharam em silêncio carregando o peso das próprias reflexões, oferecendo o melhor de si sem esperar aplausos e sem cobrar reconhecimento.

Dedico a quem não foi escolhido e, ainda assim, escolheu permanecer. A quem enfrentou dias sem cor e noites que não acabavam, e mesmo assim deixou o coração aberto.

Dedico também à profissão que abracei. Ao Serviço Social que me ensinou que escutar é trabalho, que ética não é enfeite e que muita gente atravessa a vida inteira sem ser chamada pelo nome certo.

Que este livro seja companhia no recolhimento, voz quando o silêncio apertar e uma lâmpada baixa nos cômodos escuros. Um abraço que não exige resposta. Uma mão estendida sem pressa.

É para ti, que resistes com dignidade. Que cada capítulo sirva de farol — não para apontar um caminho único, mas para lembrar que a vida, com todas as suas dificuldades, ainda merece ser vivida com amor, verdade e coragem.

Carta a José Vicente — íntegra

José Vicente

Meu pai. Homem honesto, justo, sábio, bondoso. Ser seu filho é o meu maior orgulho.

Pai, escrevo estas linhas com a mão do menino que te entregava o dinheirinho da feira e com a voz do homem de quarenta e cinco anos que ainda aprende com o teu silêncio.

O teu nome é José Vicente. Dizer o nome é um ato de gratidão. É impedir que a data o apague.

Você foi honesto quando o mundo ensinava o atalho. Justo quando o justo custava mais caro.

Sábio sem precisar de palanque. Bondoso sem pedir plateia.

Em casa chamavam você de santo homem. Eu chamo você de pai. As duas verdades cabem na mesma boca.

Ser teu filho é o meu maior orgulho. Não é frase de cartão. É o chão em que eu ainda piso quando a crise tira o resto.

Você contava as notas e devolvia uma parte. Naquela palma cabia um país inteiro de afeto.

Você me pôs na escola da noite. Não como castigo segundo. Como desvio de rota. Eu acendi ali uma chama que ainda uso.

Você trabalhava. O trabalho, em você, não era discurso. Era coluna. Eu herdei a coluna. Ainda estou aprendendo a herança.

No Dia dos Pais em que partiste, o calendário ficou cruel. O mundo abraçava o pai vivo. A nossa mesa ficou com a cadeira vazia.

Não te peço volta. Peço licença para continuar. Continuar, eu sei, é o modo de não te apagar.

Você guarda a minha infância no Jabaquara como quem guarda pão: sem alarde, com fome atendida.

Você me ensinou, sem aula, que dignidade não espera condição ideal. A feira, a chuva, o domingo repetido.

Você foi justo com o pouco. O pouco, na sua mão, virava inteiro. Essa conta eu nunca soube fazer tão bem quanto você.

A sua bondade não era moleza. Tinha peso. Tinha limite. Tinha porta na escola quando eu passava do ponto.

Sábio, você foi, no tempo certo de calar e no tempo certo de decidir. Eu ainda consulto essa bússola quando a minha se perde.

Honesto: palavra que o mercado desgasta. Em ti não desgastou. Era o jeito de olhar o troco e o jeito de olhar o filho.

Se hoje sirvo gente no ofício, há um pedaço seu nesse serviço. Cuidar é concreto. Você já sabia.

Se hoje escrevo, é porque alguém me ensinou que o que se faz com as mãos também se faz com a palavra. Tu fazias com as mãos. Eu tento as duas.

A saudade não é inimiga. É o amor ainda trabalhando, sem ofício.

Não o transformo em estátua. Estátua não conta nota. Estátua não devolve parte. Você era gente. Gente boa. Gente que ficou.

Quando a depressão mente que eu não sou importante, eu lembro que fui importante o bastante para receber o teu sorriso no domingo.

Quando a baixa estima me senta no banco da igreja como impostor, eu lembro que fui teu filho sem audição. Filho chega. Filho não pede escala.

Quando bate o desejo de parar, eu lembro da lona e de ti. A barraca não fecha porque o tempo piorou.

Obrigado pelo pão. Pelo limite. Pelo exemplo. Pelo nome que carrego e tento honrar.

Obrigado por não precisar de palco para ser grande. A sua grandeza cabia numa palma e num domingo.

Se houver um outro lado, pai, fica sabendo: a cadeira está posta. O prato agora é este livro.

Eu sigo. Com a formação. Com a luta. Com a esperança teimosa. Com o teu sobrenome moral, que não está no RG e está em tudo.

Descansa do trabalho que já cumpriste. O resto é comigo.

Eu fico. Eu fico por nós dois.

Teu filho, ainda aprendendo a contar as notas da vida e a devolver uma parte.

Com orgulho, com saudade e com a promessa de não te transformar em silêncio,

Flávio Vieira

Motivo da cadeira vazia

Meu pai se chamava José Vicente. Foi ele quem contava as notas da feira e me devolvia uma parte. Foi ele quem me pôs na escola da noite. Foi ele o domingo que se repetia. No Dia dos Pais, o domingo não se repetiu. A cadeira ficou. O prato ficou. Ele não. Não superei o Dia dos Pais. Aprendi a atravessá-lo.

“A dor agora é parte do próprio amor. É a própria definição.”

— C. S. Lewis, A Grief Observed (citado no e-book).
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