Carta a José Vicente — íntegra
José Vicente
Meu pai. Homem honesto, justo, sábio, bondoso. Ser seu filho é o meu maior orgulho.
Pai, escrevo estas linhas com a mão do menino que te entregava o dinheirinho da feira e com a voz do homem de quarenta e cinco anos que ainda aprende com o teu silêncio.
O teu nome é José Vicente. Dizer o nome é um ato de gratidão. É impedir que a data o apague.
Você foi honesto quando o mundo ensinava o atalho. Justo quando o justo custava mais caro.
Sábio sem precisar de palanque. Bondoso sem pedir plateia.
Em casa chamavam você de santo homem. Eu chamo você de pai. As duas verdades cabem na mesma boca.
Ser teu filho é o meu maior orgulho. Não é frase de cartão. É o chão em que eu ainda piso quando a crise tira o resto.
Você contava as notas e devolvia uma parte. Naquela palma cabia um país inteiro de afeto.
Você me pôs na escola da noite. Não como castigo segundo. Como desvio de rota. Eu acendi ali uma chama que ainda uso.
Você trabalhava. O trabalho, em você, não era discurso. Era coluna. Eu herdei a coluna. Ainda estou aprendendo a herança.
No Dia dos Pais em que partiste, o calendário ficou cruel. O mundo abraçava o pai vivo. A nossa mesa ficou com a cadeira vazia.
Não te peço volta. Peço licença para continuar. Continuar, eu sei, é o modo de não te apagar.
Você guarda a minha infância no Jabaquara como quem guarda pão: sem alarde, com fome atendida.
Você me ensinou, sem aula, que dignidade não espera condição ideal. A feira, a chuva, o domingo repetido.
Você foi justo com o pouco. O pouco, na sua mão, virava inteiro. Essa conta eu nunca soube fazer tão bem quanto você.
A sua bondade não era moleza. Tinha peso. Tinha limite. Tinha porta na escola quando eu passava do ponto.
Sábio, você foi, no tempo certo de calar e no tempo certo de decidir. Eu ainda consulto essa bússola quando a minha se perde.
Honesto: palavra que o mercado desgasta. Em ti não desgastou. Era o jeito de olhar o troco e o jeito de olhar o filho.
Se hoje sirvo gente no ofício, há um pedaço seu nesse serviço. Cuidar é concreto. Você já sabia.
Se hoje escrevo, é porque alguém me ensinou que o que se faz com as mãos também se faz com a palavra. Tu fazias com as mãos. Eu tento as duas.
A saudade não é inimiga. É o amor ainda trabalhando, sem ofício.
Não o transformo em estátua. Estátua não conta nota. Estátua não devolve parte. Você era gente. Gente boa. Gente que ficou.
Quando a depressão mente que eu não sou importante, eu lembro que fui importante o bastante para receber o teu sorriso no domingo.
Quando a baixa estima me senta no banco da igreja como impostor, eu lembro que fui teu filho sem audição. Filho chega. Filho não pede escala.
Quando bate o desejo de parar, eu lembro da lona e de ti. A barraca não fecha porque o tempo piorou.
Obrigado pelo pão. Pelo limite. Pelo exemplo. Pelo nome que carrego e tento honrar.
Obrigado por não precisar de palco para ser grande. A sua grandeza cabia numa palma e num domingo.
Se houver um outro lado, pai, fica sabendo: a cadeira está posta. O prato agora é este livro.
Eu sigo. Com a formação. Com a luta. Com a esperança teimosa. Com o teu sobrenome moral, que não está no RG e está em tudo.
Descansa do trabalho que já cumpriste. O resto é comigo.
Eu fico. Eu fico por nós dois.
Teu filho, ainda aprendendo a contar as notas da vida e a devolver uma parte.
Com orgulho, com saudade e com a promessa de não te transformar em silêncio,
Flávio Vieira